Robert Rauschenberg e a arte que recusou escolher entre tudo

Em 1953, Robert Rauschenberg pediu um desenho a Willem de Kooning — um dos pintores mais respeitados do expressionismo abstrato americano — e depois o apagou. Trabalhou no apagamento por semanas, usando borrachas diferentes para remover cada traço, até que sobrou uma superfície levemente manchada numa folha quase vazia. Chamou o resultado de Erased de Kooning Drawing e o expôs como obra de arte.

O gesto foi provocador, claro — mas não destrutivo no sentido simples. Rauschenberg pediu permissão a De Kooning, que concordou, embora contrariado. O que estava em jogo não era uma declaração de guerra ao expressionismo abstrato, mas uma pergunta genuína: o apagamento pode ser criação? O que resta quando você remove tudo que um artista fez? A superfície em branco depois do apagamento é a mesma superfície em branco antes do primeiro traço?

Esse tipo de pergunta definia Rauschenberg — um artista que passou a vida inteira recusando as categorias que o mundo da arte tentava impor sobre ele.

Entre a pintura e o mundo

Rauschenberg nasceu em 1925 em Port Arthur, Texas, numa família religiosa de poucos recursos, e chegou à arte de forma tortuosa — passou pela Marinha, estudou no Black Mountain College na Carolina do Norte (onde conheceu John Cage e Merce Cunningham, parcerias que durariam décadas), e desenvolveu uma sensibilidade radicalmente diferente da que dominava o cenário de Nova York nos anos 1950.

Onde os expressionistas abstratos acreditavam na pintura como expressão pura da subjetividade — a tela como campo de batalha do eu interior — Rauschenberg queria trabalhar “no espaço entre a arte e a vida”. Era uma formulação deliberada: não dentro da arte, não dentro da vida, mas no espaço entre as duas, onde as categorias ficam instáveis.

Seus Combines — obras que misturavam pintura com objetos físicos tridimensionais — materializavam essa postura. Monogram (1955-1959), talvez sua obra mais conhecida, é uma cabra empalhada com um pneu de automóvel ao redor do ventre, colocada sobre uma plataforma pintada. É pintura? Escultura? Instalação? Rauschenberg dizia que essas perguntas eram o ponto.

O lixo como material nobre

Uma das marcas mais características do trabalho de Rauschenberg é o uso de materiais descartados, encontrados na rua ou comprados em bazares — jornais, revistas, reproduções de obras de arte, fotografias, tecidos, pedaços de madeira. Sua série Silkscreen Paintings, dos anos 1960, transferia imagens da cultura de massa para a tela através de serigrafia: fotos de Kennedy, imagens da corrida espacial, pinturas de Velázquez e Rubens, retratos de atletas e astronautas, tudo convivendo na mesma superfície sem hierarquia.

Isso era radicalmente diferente do que Andy Warhol estava fazendo ao mesmo tempo — embora ambos usassem serigrafia e imagens da cultura popular. Warhol repetia a imagem até ela perder sentido, criando um efeito de entorpecimento. Rauschenberg acumulava imagens diferentes e as deixava colidir, criar tensão, conversar de formas imprevisíveis. Era caos com intenção.

O MoMA de Nova York, que guarda uma coleção significativa de obras de Rauschenberg, descreve sua contribuição como fundamental para a transição entre o expressionismo abstrato e a Pop Art — ele foi a ponte, o artista que abriu o caminho que outros depois percorreriam de forma mais sistemática.

Colaboração como método

Rauschenberg nunca trabalhou bem com a ideia do artista solitário no estúdio. Ao longo de toda a carreira buscou colaborações — com músicos (John Cage), coreógrafos (Merce Cunningham, Trisha Brown, Paul Taylor), engenheiros (como parte do grupo Experiments in Art and Technology, que nos anos 1960 promoveu encontros entre artistas e cientistas da Bell Labs), e com comunidades ao redor do mundo através do projeto ROCI (Rauschenberg Overseas Culture Interchange), em que visitou países como China, Cuba, Chile e Tibete para criar obras em colaboração com artistas locais.

Para quem quer se aprofundar no universo de Rauschenberg — seus processos, materiais, colaborações — o acervo dedicado a Rauschenberg no Colorindo.org oferece uma entrada visual acessível à linguagem visual do artista, com desenhos que capturam a sobreposição e a heterogeneidade característica de suas obras. É uma forma de começar a habitar a lógica visual antes de mergulhar na obra original.

O que ele deixou

Rauschenberg morreu em 2008, aos 82 anos, e o que deixou é difícil de resumir em estilo ou período. Ele foi um artista que nunca parou de experimentar — nas últimas décadas da vida ainda estava criando obras em escala monumental, usando tecnologias de impressão digital sobre tecidos translúcidos. A consistência não estava no método, estava na postura: sempre perguntar o que mais poderia entrar na obra, quem mais poderia participar, que fronteira ainda não tinha sido testada.

Talvez o legado mais duradouro de Rauschenberg seja precisamente essa recusa de se estabilizar. Num mundo da arte que frequentemente premia a coerência estilística — o artista reconhecível à primeira vista — ele insistiu que a arte podia ser o lugar onde você admite não saber o que é arte. E fez dessa admissão uma obra de vida inteira.

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